by Gabriel Bustilho
mesmo de longe dava pra ver era menos
pólen que poeira de alumínio o conjunto
de partículas que povoava o ar quando
a pesada pétala de metal pesado desabou
sobre a grama do parque após a tempestade
sendo tão pesada não há vento que carregue
a pétala fugidia para um outono mais distante
como não há abelhas de titânio sobrevoando
sua luz artificial quando se descobre que o vermelho
refletido no espelho d’água não é o coração de nada
é mais por costume que por convicção
que toda troncha desabrocha pela manhã
a imensa flor genérica com seu sonho de ser
ideal de flor com seu metal mágico
— metástase da flor
flor asséptica não rompeste o betume
do asfalto não furaste o ódio por que é
então que me emociona teu brilho afiado
frio brilho da vida inorgânica do aço
sobrevivendo ao tempo?
indiferente à primavera
ao contrário desses pássaros
que migram em orquestra
a flor de aço insiste em ser eterna
como um rosto que se leva na memória