floralis generica

by Gabriel Bustilho

floralis generica

  1. mesmo de longe dava pra ver era menos
    pólen que poeira de alumínio o conjunto
    de partículas que povoava o ar quando
    a pesada pétala de metal pesado desabou
    sobre a grama do parque após a tempestade

  2. sendo tão pesada não há vento que carregue
    a pétala fugidia para um outono mais distante
    como não há abelhas de titânio sobrevoando
    sua luz artificial quando se descobre que o vermelho
    refletido no espelho d’água não é o coração de nada

  3. é mais por costume que por convicção
    que toda troncha desabrocha pela manhã
    a imensa flor genérica com seu sonho de ser
    ideal de flor com seu metal mágico
    — metástase da flor

  4. flor asséptica não rompeste o betume
    do asfalto não furaste o ódio por que é
    então que me emociona teu brilho afiado
    frio brilho da vida inorgânica do aço
    sobrevivendo ao tempo?

  5. indiferente à primavera
    ao contrário desses pássaros
    que migram em orquestra
    a flor de aço insiste em ser eterna
    como um rosto que se leva na memória


Gabriel Bustilho is a poet, researcher, and editor. He is currently a PhD candidate in the Graduate Program in Literary Science at the Federal University of Rio de Janeiro, developing a research project on myth based on the writings of Georges Bataille and documents from the Surrealist movement, with publications in both Brazilian and international journals. As a poet, he has published individual poems and the book No dia após, which was a semifinalist for the Oceanos Prize. He has worked as an editor for both academic and poetry magazines.